Dias de desassossego

 
O dia de hoje repete o de ontem e o de anteontem. Engolidos por uma nuvem letal. Que quase nos faz esquecer que, lá, nos Estados Unidos, Donald Trump viu a sua era chegar ao fim - apesar de prometer voltar em breve -, galgado por um Biden que tira da gaveta o Acordo de Paris e tudo o que seu cumprimento impacta nesta nossa Humanidade. Duvidando que mereça a maiúscula.

Todos os dias batemos recordes de um vírus imparável que segue agora a passo descontrolado no nosso país. Muito por culpa da variante inglesa, que no início de fevereiro poderá responder por 60% do total de casos. Muito por culpa... é melhor deixar as outras culpas para daqui a um, dois anos, quando podermos parar para tirar ilações. Sendo certa que outras pandemias se seguirão. Assim o mostra a História, assim o prediz a Ciência.
 
Olhar, diariamente, para o eVM, sistema único no Mundo de vigilância da mortalidade em tempo real, é não um mas um série de murros no estômago. São curvas nunca antes vistas. De óbitos diários. De excesso de mortes. De mortalidade prematura. E lá fora o dia tenta seguir o seu rumo, sob o espectro daquela nuvem.
 
São números, dirão. São pessoas. Com pessoas atrás de si. Com a geração acima dos 80 anos - pais e mães, avós e avôs, tios e tias - a ser literalmente engolida pela nuvem. Pelo vírus. Pelo que não se fez a tempo. Por minutos e segundos que chegaram, também eles, demasiado tarde.
 
São números, de pessoas, que morreram também porque o vírus engoliu o nosso sistema de saúde e deixou para trás milhares de doentes - cardiovasculares, oncológicos, respiratórios - que perderam tempo que não podiam ter perdido. Têm um nome. Mortalidade colateral. Como nas guerras.
 
Andamos a semana a opinar sobre as escolas. Fecha. Não fecha. Em que condições. Atenção às iniquidades. Mais um dano colateral. O outro extremo, a geração mais nova, privada de aprendizagem e socialização. Diabolizadas desde o início da pandemia como o grande vector do SARS-CoV-2.
 
Esse vector está na mobilidade. Na irresponsabilidade cívica. No desgoverno (quem queria, hoje, governar um país?!). Todas as previsões são ultrapassadas passadas horas, minutos, segundos. Na certeza, porém, de que estes nossos dias de desassossego serão piores amanhã, depois de amanhã. Saibamos nós parar.
 
P.S. Quem não confinou foi a campanha eleitoral. Veremos em que se fica a abstenção no escrutínio de domingo.

(Ao caer da tarde... reflexâo enviada pelo Jornal de Notícias aos seus seguidores)







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