La famosa entrevista de hace un año en la que Mario Coelho cuenta su vida...

En el semanario Sol, hace ahora un año, se publicaba una larguísima entrevista, pero toda absolutamente interesante, con el maestro Mario Coelho. Hoy, con su muerte, recobra actualidad plena. Con la debida venia y en recuerdo del gran torero que fue, reproducimos parte de estas declaraciones. El global completo deben ustedes leerlo en la fuente original para lo que solamente
tienen que hacer click aquí.


Por Daniela Soares Ferreira e Vítor Rainho
publicação original no semanário Sol : 20 de maio de 2019

Nasceu em Vila Franca...


Sim, nasci a 25 de março de 1936, numa época terrivelmente difícil. Todos os jovens aqui de Vila Franca queriam ser toureiros e eu não fugi a isso. Há uma palavra espanhola muito gira para definir esse fascínio: ‘fui inyectado con veneno’. Mas naquela altura todos os filhos tinham que trabalhar, ajudar a casa e eu era de uma família simples. Fui convidado duas ou três vezes para escolas de toureiros que havia em Lisboa e não podia ir porque tinha que chegar ao fim de semana e entregar o dinheiro de ajudante de canalizador na Câmara, onde comecei a trabalhar aos nove anos. A partir dos 15 anos fui chefe dos canalizadores, mas aos 17, 18 tornei-me toureiro profissional.

Um dos episódios que o marcou foi quando ia a uma corrida com o seu pai e alguém lhe ofereceu dinheiro pelos bilhetes.

Emociono-me quando falo nesse pormenor. O meu pai era campino e para fugir à vida dura de campino, empregou-se na Câmara, onde era muito popular. E havia um homem que, em todas as corridas, a troco de favores que o meu pai fazia - de montar ou desbastar o cavalo dele ou dar-lhe conselhos, porque era um homem com grande conhecimento de cavalos e touros - lhe dava um bilhete para todas as corridas. Havia muito movimento nessa altura na feira - lembro-me do cheiro do polvo seco assado nas ruas -, com aquelas mulherzinhas que vinham de Lisboa, as bandas de música, aquilo era uma excitação fantástica numa criança. A praça estava esgotada já há dois dias, e quando viram o meu pai com o bilhete na mão ofereceram-lhe diversas importâncias. Até que chegou uma importância que dava para alimentar a minha casa de seis pessoas durante um mês: cento e tal escudos. Mas levava a sua mão direita na minha mão esquerda e houve uma transmissão da minha mão com a dele. Senti que ele pensou: ‘Não, nem por dinheiro nenhum eu não vou a esta corrida e levo o meu filho comigo’. Hoje tenho 83 anos e lembro-me perfeitamente como se fosse ontem. Estou convicto que ele tinha vendido o bilhete se eu não fosse com ele.

E é nesse momento que entende que vai ser toureiro?

Sim. Foi esse e foi diante de um cartaz que eu vi às oito da manhã quando saí para a escola, também com seis, sete anos, em que vi duas figuras de dois toureiros em colorido e babei-me ali à frente do cartaz. Foram esses dois momentos em que levei o tal veneno, no bom sentido, de querer ser toureiro.

Como é que aos 17 anos se torna toureiro profissional?

Entrei em muitos espetáculos públicos como amador. E então começaram a ver que eu tinha condições. Eu fazia tudo.

Como treinava?

Com os daqui da terra, já mais velhos, homens feitos, que, julgava eu, eram figuras. Eram amadores, mas aprendi muito com eles e eram eles que me levavam ao campo, às chamadas tentas. É preciso tourear as vacas para ver se têm condições para serem mães ou não de touros bravos. Toureamos 100 vacas. Há 30 ou 40% que tem condições de bravura para serem mães dos touros. As outras de menor categoria vão para o talho. E depois temos que selecionar seis, sete ou dez touros sementais, que já foram selecionados pela sua bravura, que são os reprodutores. Tudo isso é sempre feito quase em segredo. São os toureiros, o ganadeiro e mais um ou dois convidados. Sabíamos através de um campino e aparecíamos lá. Andávamos 10, 20, 30, 40 quilómetros a pé para ver a tenta e para que nos dessem uma oportunidade. Tudo aquilo era uma aprendizagem com muito sacrifício, com muita dureza. Nalguns casos éramos mal recebidos.

Levou muita marrada?

Levei muitas voltaretas e, na espera de touros, muito mais. São touros já feitos e toureados, sabem mais que nós. E aí sim, há dureza.

Mas os touros depois de serem toureados voltavam a ser toureados?

Muitos sim, mas não numa praça de touros. Eram toureados em espera de touros e espetáculos menores, as chamadas garraiadas.

Falou em ser mal visto. O que era ser mal visto?

Éramos chamados os ‘maletillas’, os que queriam ser toureiros mas não tinham meios. Éramos considerados menores. Entrávamos nas propriedades sem autorização. Havia muitas ganadarias que já nos conheciam e nos recebiam. Mas havia outras onde iam convidados espanhóis, e não éramos bem vistos porque ali só queriam toureiros consagrados. Da primeira vez que fui a uma tenta, saí às seis para chegar lá às dez da manhã. Depois de 20 quilómetros a pé tive que andar quatro quilómetros dentro da propriedade. Éramos cinco ou seis e quando lá chegámos havia grandes figuras mundiais e o responsável disse: “maletillas fuera”, em espanhol. Fomos expulsos, chorei nessa caminhada. Tinha 12 anos e disse: “Um dia vou entrar nesta ganadaria pela porta grande”. E a verdade é que, anos depois, fui convidado pela condessa de Sobral, que era a dona, para ser o responsável pela seleção de toda a ganadaria. Estive 27 anos a selecionar as futuras mães.

Então com 17 anos, qual é a sua grande corrida como profissional?

A minha primeira grande corrida foi alternativa. Houve uma prova de praticante - para passar de amador a profissional, naquela época tínhamos que levar o touro, o padrinho de alternativa e mais um ajudante profissional. E nós é que pagávamos tudo. Toureávamos o touro com o capote, bandarilhávamos e depois havia 10 elementos no júri que punham o ok. E assim foi.

Como é que teve dinheiro?

Não tinha. Pedia aos ganadeiros. Fui ter com o Júlio Borba, que é meu amigo aqui de Vila Franca. Quando havia alguma festa, para entreter os seus convidados, eu ia lá tourear umas vacas e pedi-lhe um touro. Um touro meio de casta espanhola, meio de casta portuguesa. São mais difíceis de tourear. Então tive que prestar provas em Vila Franca, em 1955, perante a praça cheia e o touro não se prestou mas eu estive bem. Ao primeiro par de bandarilhas mete-me o piton na boca e partiu-me três ou quatro dentes. Havia os bandarilheiros mais idosos a quem não convinha que aparecessem os jovens, já que era um posto que ocupavam deles. Mas o júri foi unânime e passei automaticamente a bandarilheiro.

E começa aí uma vida que se traduz em quê?

Comecei nesse ano e até 1960 ganhei todos os prémios que estavam em disputa do melhor bandarilheiro de Portugal.

E quanto ganhava nessa altura?

Um conto e quinhentos. Ganhava 300 escudos de praticante mas depois passava-se a profissional e começava-se a ganhar um pouco mais.

Há uma corrida célebre que estava a Amália Rodrigues a ver.

Foi logo no princípio, na Nazaré. Aquilo estava anunciado como uma vacada, mas naquela altura anunciavam uma vacada e punham touros. E era obrigatório pôr três profissionais - eu ainda era amador - mas os profissionais não se punham à frente dos touros, serviam só para que houvesse uma licença para o espetáculo. Os miúdos amadores que queriam ser toureiros é que iam tourear. Chego lá e havia mais quatro miúdos, um deles de Santarém que mais tarde foi até crítico taurino. E qual não é o meu espanto quando fico sozinho com esse de Santarém. Mas assim que saiu o primeiro touro já nem o de Santarém lá estava. A praça estava cheia, os pescadores na altura iam àqueles espetáculos menores e estavam todos contentes. Eu tinha que dar espetáculo. Corria à frente do touro, e ao chegar à teia punha um pé no estribo, outro em cima da teia. Formando um salto, passo por cima do callejón e fico sentado em cima da barreira, mesmo encostado ao lugar onde estava a Amália Rodrigues. Foi quando ela diz: “Este rapaz é um diabo”. Com o dinheiro que ganhei comi seis doses de lulas e comprei um terço de prata dourada em filigrana, para a minha mãe.

Quando começa a tourear lá fora?

Muito cedo. Começo como praticante a bandarilheiro logo em 1956, em Espanha e aí vejo a diferença entre o ambiente de lá e o nosso. Lá tocava-me muito mais, havia mais emoção e continuei com os meus compromissos familiares, alimentado também com os prémios que recebia.

Que compromissos eram esses?

Era o dinheiro de todas as semanas que continuava a dar aos pais. Comecei a comprar fatos, capotes e o que era necessário. Mas a maior parte do dinheiro era sempre para a família. Costumo dizer que na minha vida abriram-se as fronteiras e as portas. Estava habituado a casas de terra batida e passei a frequentar palácios e hotéis de cinco estrelas.

Como se passa das casas de terra batida para os palácios?

É evidente que, acima de tudo, com muito trabalho e uma ânsia de triunfo, de aprender. Eu tirei a quarta classe. Tirar a quarta classe era importantíssimo porque já se podia ser empregado de escritório, empregado de comércio, muita coisa. Mas a maior riqueza é a aprendizagem social com as pessoas. Aprendi muito com as pessoas e bebia tudo o que diziam e, acima de tudo, quando tinha respeito, admiração e humildade. Deus deu-me orgulho, deu-me vaidade e ambição mas também humildade para pôr a balança no nível. Fui para Espanha e começaram os êxitos. Os espanhóis - naquela época mais - tinham um certo respeito pelo touro. E não faziam coisas que muitas vezes acarretavam mais perigo. E eu, habituado à dureza do touro aqui, da espera de touros, dos festivais, do andar em praças de segunda, terceira e quarta categoria, deu-me conhecimento e atrevimento sobre o touro. Quando cheguei a Espanha comecei a fazer coisas que eles não faziam. Eu ia ao touro. Ou deixava que o touro viesse, chamava-o. E comecei a ter os tais êxitos. É evidente que um português que estivesse em Espanha tinha muitas dificuldades. Mas depois vem a parte social. Começa a haver aberturas, convites, surgem muitas amizades, encontros espontâneos.

Como é que o toureiro, no seu caso bandarilheiro, era visto nessa sociedade mais elitista?

O bandarilheiro toda a vida foi um subalterno. Não vejam as minhas palavras como vaidade mas foi o que sucedeu: fui um bandarilheiro que foi para Espanha e, caso único na tauromaquia mundial, comecei a sair a ombros. Houve um ano que saí cinco vezes a ombros nas feiras principais de Espanha. Isso era um escândalo para os meus colegas e os matadores não gostavam que um subalterno saísse a ombros. Daí haver muitos convites.

Que tipo de convites?

Por exemplo, o Pablo Picasso. Estávamos no mesmo hotel, íamos ao bar do hotel, eu convivia com os toureiros todos. E então cumprimentei-o no bar. Da parte da tarde houve corrida e fui bandarilhar um touro. Nós, os bandarilheiros, não devemos por respeito e por ética, brindar. Nem podemos tirar a montera se não for o público a dar uma ovação. Nessa corrida fui eu e um rapaz que era de Jerez de La Frontera, Juan Romero, e fomos bandarilhar um touro. Como não podíamos tirar a montera, passámos. Ele [Picasso] estava na barreira e nós cá dentro junto à teia. Quando regressámos houve uma ovação. Viemos para a teia e ele chamou-nos. A esse Juan Romero deu-lhe uma caneta em ouro e a mim deu-me um bilhete que havia em França, que eram alongados, e, nas costas do bilhete, fez uma figura de um bandarilheiro a pôr um par de bandarilhas. Ele fez o desenho durante a corrida. Não tenho o desenho porque dei-o a um homem que morreu dois anos depois. Segundo os filhos, e eu acredito plenamente, não encontraram o desenho. O que é certo é que eu acompanhei durante anos diversas exposições do Picasso em Espanha e até em França e esse desenho nunca apareceu.

Pegou no desenho e mandou fazer o fato, que haveria de emprestar anos mais tarde e que nunca o devolveram.

Isto foi um bandarilheiro aqui de Vila Franca. Vendeu-o, veja lá, por 20 contos. Entretanto, a Câmara de Vila Franca de Xira fez uma exposição e fui à procura da pessoa que tinha comprado o fato, o senhor Tavares, e perguntei-lhe se ele me vendia o fato. Ou então ele vinha aqui a casa e escolhia um dos 14 ou 15 fatos que eu tinha, porque aquele fato representava muito para mim. E ele muito sério disse que só me emprestava o fato para a exposição com um seguro e com o compromisso de lhe devolver o fato porque ele sabia o valor que o fato tem. Disse-me até que já tinha dado o fato à filha, que trabalha na televisão. O tipo não me vendeu o fato, não falei mais com ele e passado pouco tempo vi-o na net à venda. Foi a leilão e alguém me disse que chegou aos 40 mil euros mas mesmo assim ele não o vendeu.

Chegou a encontrar o Picasso mais vezes?

Sim. Nessa corrida, em Arles, no sul de França, convidou-me para ir no dia seguinte almoçar a uma terra perto de Camarga, onde ele passava pequenas temporadas. Tinha um chalé, um jardim e uma pequena garagem onde tinha um cavalete onde pintava de vez em quando. Convidou-nos para almoçar, a mim e ao Juan Romero, no jardim, e havia uma quantidade de amigos à mesa. Pôs-me ao lado direito dele e de um momento para o outro há uma discussão. ‘O gallego isto, o gallego aquilo’ e houve alguém na mesa que lhe disse que não era bem assim. E foi aí que eu vi um homem que era sociável, com as veias bem salientes, zangadíssimo com o Paquito e com o gallego. E só no final, veja bem a minha pouca experiência política, é que me dei conta que o Paquito e o gallego eram o generalíssimo Franco, que ele odiava. Aquela discussão quebrou um bocadinho o ambiente ali à mesa e então o Picasso chama o Juan Romero para irmos tomar um copo na tal garagem/atelier. Pediu à empregada que levasse um jarro de vinho e três copos, mas ela enganou-se e levou um jarro de sangria. Ele zangou-se e ela foi buscar o vinho. Serviu-nos aos dois convenientemente, até meio e encheu o dele - e o copo era grande. Estranhei aqueles modos, mas às tantas percebi o porquê. Punha o dedo no copo, dando em seguida umas passagens suaves na pintura daquela pequena tela, deixando uma mancha arroxeada, soberba, que completou e engrandeceu a pintura já feita.

E como é que começa a entrar nesse meio?

Eu ia muito a Madrid. Depois fui contratado como bandarilheiro para fazer 20 corridas exclusivas em Madrid e toureava quase todos os domingos.

Ganhava muito dinheiro?

Sim. Nessa altura, a tabela dos bandarilheiros de primeira eram cinco mil e quinhentas pesetas. E a praça de touros de Madrid dava-me 20 mil pesetas por cada corrida. E porquê? Porque em algumas corridas bandarilhei os seis touros. Isso ajudou ainda mais a minha caminhada como bandarilheiro, como subalterno, e aproximava-se toda essa gente boa.

Com essa entrada num mundo diferente, não sentiu necessidade de ler para saber mais?

Senti. Há uma frase famosa que é: “queres a tua riqueza, procura uma biblioteca”. E tenho talvez a melhor biblioteca de Vila Franca. Um miúdo de quarta classe, andando nesse ambiente, é obrigatório evoluir, ainda que seja à nossa própria conta, sem professores. A conviver com essa gente, tem que se saber pelo menos o ABC a nível de cultura geral. Porque não tenho pejo em dizer que, com a idade que tenho, não atingi um grau cultural que tinha o Hemingway ou o Orson Welles ou até o próprio Picasso, mas convivi com eles.

E as línguas?


Falava muito espanhol. O meu inglês era só quando dava com um martelo num dedo. Todos eles sabiam espanhol. A que sabia menos era a Ava Gardner que misturava o inglês. Mas sempre me defendi muito bem com eles. E quando havia, também tinha a minha conversa em inglês, muito reduzido. Mas sempre me fiz entender perfeitamente.

Voltando ao Picasso.

Ele era um homem de grande temperamento. Uma personalidade forte. Eu defini-o naquele almoço. Como é que um homem pode estar calmo e em dois ou três segundos põe-se na máxima temperatura, agressivo até? Parecia um touro. Estive mais duas ou três vezes com ele e a última vez foi quando ele fez 80 anos. Vi-o já completamente diferente, um homem abatido fisicamente.

Nessa altura era um homem muito assediado, rodeado de mulheres?

Sem dúvida. Era mais um sedutor do que um galã.

E é aí que conhece a Ava Gardner.

Ela falava espanhol com uma pronuncia americanizada. Mas entendíamo-nos perfeitamente. Conheci-a numa corrida de touros em Alcalá de Henares. Ela tinha o costume de entrar na corrida depois de começar e sair antes de acabar. E quando ela chegou, muito bela, olhei para trás e ela estava ali sobre o meu ombro, a quatro cinco metros de distância. Olhei três ou quatro vezes para a senhora. Com 20 e tal anos é normal que tenha olhado com um ar sedutor. Voltei a encontrá-la numa receção na embaixada dos Estados Unidos em Madrid. Estava também o Orson Welles. Ela estava sentada, depois do pica-pica, a beber uma bebida. Fui buscar uma e sentei-me ao lado dela. Estivemos ali muitas horas. E depois começámos a sair. Ela não gostava do sol, o dia para ela era um inferno. Era feliz de noite. Íamos a restaurantes ou ao bar do Ritz, sempre à noite. Não me lembro de alguma vez ter almoçado com ela. Havia um restaurante muito famoso com uma esplanada e as pessoas estavam ali até às três da manhã. E nós andávamos aí, ela com boné, óculos e ninguém deu por ela. E fazíamos umas corridinhas em volta do estádio Chamartín às duas, três da manhã. Tinha coisas fantásticas. Aquela mulher nunca foi feliz verdadeiramente. Descalçava-se.

No meio da rua?

Na rua! Uma vez descalçou-se e tinha uma meia castanha e outra encarnada. Levava os sapatos na mão e andávamos ali. Era tudo assim meio amalucado.