Quando os coveiros da Festa acabam por estar nas próprias fileiras da Tauromaquia...

Uma das touradas retransmitida pela RTP desde Albufeira O princípio do fim...   Não serão poucos os que pensam assim, depois de saberem com...


Uma das touradas retransmitida pela RTP desde Albufeira


O princípio do fim...
 Não serão poucos os que pensam assim, depois de saberem como terminou a Tauromaquia -também- numa região onde estava instalada há tantos anos : o Algarve.

A praça de touros de Albufeira era um referente e um baluarte do mundo dos Touros. Agora, despachada numa venda daquela maneira, a praça algarvia já é só carne de máquina escavadora e de derrubo, para construir ali, onde a Tauromaquia era, apartamentos turísticos e outros negócios imobiliários.
A praça de touros fazia parte de um complexo de apartamentos e escritórios propriedade do antigo matador de touros, Fernando dos Santos.

Dez anos atrás, Fernando dos Santos vendeu o complexo de apartamentos-escritórios-praça de touros a uma empresa de interesses imobiliários, ficando com o direito de exploração da praça de touros durante 50 anos, assim como um escritório e um apartamento no lugar, segundo contou não há muito tempo, o blog "Farpas".

Passaram dez anos assim, com temporadas taurinas, uma após a outra na praça de Albufeira, até o outono de 2019. Depois veio a peste, como é sabido; não houve atividade taurina no Algarve em 2020. E este 2021 começa com a notícia de que os herdeiros de Fernando dos Santos, sua filha, liquidaram o direito de uso e exploração da praça, tornando-se, na prática, coveiros da Tauromaquia no Algarve (Ai, Tito Semedo!). Porque desapareceu a praça de Albufeira (uma praça, ainda por cima, das chamadas "de temporada"); já me dirão que futuro pode ter na região a Festa dos Touros : nenhum!.

A Associação Nacional de Toureiros e o Fundo de Assistência dos Toureiros Portugueses evocam hoje a Memória do matador de touros Diamantino Vizeu, no dia em que passam 20 anos da morte do fundador do antigo "Sindicato dos Toureiros". Muito bem feito, mas... ao lado também podiam evocar a praça de touros de Albufeira e o papel importante que tem desempenhado desde que foi inaugurada (lá pelo início dos anos 80 até agora). Que se saiba, nem uma nota de lamento por esta venda, por este puntillazo à Festa nas terras do final de Portugal. Tampouco (s.e.u.o.) vi por aí uma nota da tão famosa como polêmica Protoiro analisando e lamentando o "caso Albufeira"...

Estamos onde estávamos : quem defende realmente a Tauromaquia em Portugal, com ações efetivas, a tempo, que verdadeiramente obtenham resultados...?

Há poucos dias escrevíamos um artigo sobre a tragédia que significou para a Festa o desaparecimento da praça de touros de Viana do Castelo e o desaparecimento, também, agora, da praça de touros da Póvoa de Varzim. As praças fixas, com muitíssimos anos de existência, que havia no Norte de Portugal... condenadas à morte, em operações e manobras a cargo de Câmaras Municipais, políticos aos quais uma resposta categórica e bem colocada por parte das forças vivas da Tauromaquia portuguesa... provavelmente, conseguia faze-los pensar mais no que tinha de ser feito. Mas a Tauromaquia portuguesa (como a espanhola) não tem forças vivas que a defendam, incompreensivelmente tem forças mortas. E assim não se vai a parte alguma...

É por isso que... se naqueles casos de Viana do Castelo e Póvoa de Varzim nada prático e eficaz fez a Tauromaquia Portuguesa para defender a continuidade daquelas praças, menos era de esperar agora que a Protoiro ou o "Maestro Armero" fossem fazer... intervindo no "caso Albufeira", um negócio só entre privados.

Mas há um facto claro : dez anos se passaram desde que Fernando dos Santos se desfez da propriedade do complexo de Albufeira, onde estava a praça de touros... Dez anos é tempo mais do que suficiente para que as forças vivas da Tauromaquia portuguesa tivessem falado e negociado com o antigo toureiro e a sua família (na qual há outro toureiro) e convencê-los para que, se um dia decidissem atirar a toalha, falassem primeiro com eles, com os Protoiro´s ou com quem representasse a Tauromaquia portuguesa, para buscar uma solução, a que fosse, mas que evitasse que a Tauromaquia fosse fulminada, condenada a desaparecer sem mais no Algarve, em toda uma região nada menos... Se algo foi feito no assunto, foi mais um fracasso das "forças vivas"... E se nada foi feito nestes anos, pior ainda, porque significa que ninguém se preocupou com o que um dia poderia acontecer e aconteceu.

é grave todo esse abandono, essa despreocupação, porque não coincide com o que evidenciam as muitas fotos do acto de homenagem a Fernando dos Santos, celebrado em setembro de 2017 (tampouco faz tanto) em Alcobaça, onde foi condecorado pela Câmara Municipal do lugar. As imagens mostram-nos não poucos notáveis da Tauromaquia portuguesa ali, dados ao abraço, ao elogio, às felicitações ao homenageado Fernando dos Santos. Por estar... em abarrotado local, até estava o Padre Melicias. (Se tiverem dúvidas, acedam neste link para recordar aquilo...

Três anos e poucos meses depois daquela homenagem, a filha do homenageado diz que tem um enorme desgosto por ter liquidado (já em julho do ano passado) a praça de Albufeira. "Vendemos a praça... Primeiro não se podia fazer Publicidade, segundo com a pandemia isto piorou e acabou por ser uma oportunidade de negócio. O apoio no Algarve era nenhum. Sinto-me muito triste, vai ficar uma mágoa para a vida toda, eu fui criada ali", disse Sofía Gamboa ao "Farpas".

Esta senhora, a família de Fernando dos Santos, está no seu direito de liquidar o que era sua propriedade, de acabar com esse direito de exploração da praça que tinham. Como os novos proprietários plenipotenciários do local estão no seu direito de anunciar -como o fizeram- que se terminaram ali as touradas para sempre... Claro que sim, estão no seu direito. Como também estão no seu direito os aficionados aos touros, de saber se uma entidade que se diz tão representativa, tão defensora da Tauromaquia... como a Protoiro e outras do setor, moveram ou não um dedo, fizeram ou não gestões -e quais foram- para tentar evitar que o lamentável "caso Albufeira" terminasse como terminou.

Porque aqui há uma coisa muito clara. Num espaço de tempo muito curto, três golpes mortais acabam de ser infringidos à Tauromaquia portuguesa : fazer desaparecer as duas únicas praças fixas que restavam na muito extensa zona que vai da Figueira da Foz até Valença do Minho e, agora, desde Julho de 2020, também vai embora a única praça que havia no Sul, na região do Algarve... se isto não for grave, muito grave, já me dirão o que é...

A Tauromaquia, há já alguns anos que o dizemos, não vai desaparecer um dia pelos ataques de anti-taurinos e fundamentalistas radicais. É evidente que um político ingrato pode acabar fazendo muito dano à Festa. Mas... o maior inimigo da Tauromaquia, o principal problema da Tauromaquia, é a passividade dos seus agentes fundamentais, das suas forças vivas... Os coveiros da Festa acabam por estar nas próprias fileiras da Tauromaquia. Não se enganem :  a Tauromaquia irá esmorecendo, irá debilitando-se, até o desaparecimento final já exausta, com episódios um após o outro, onde a renúncia e a falta de compromisso real para sua defesa estarão presentes como nos casos de Viana do Castelo, Póvoa de Varzim e... também, por que não, Albufeira.

Hoje, a Tauromaquia em Portugal já só está presente, em lugares fixos, no centro do país. No Norte deixou de existir, no Sul-Algarve também. Vai ser muito difícil que as gerações mais jovens tenham praças e touradas para assistir quando entrarem na idade dos velhos. O futuro é tenebroso, mas os próprios taurinos assim o quiseram, estão querendo que assim seja...


 

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