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"rías baixas tribuna") Por el final de las absurdas fronteras (políticas, sociales, económicas...) que aún subsisten entre España (singularmente Galicia) y Portugal...y que tanto perjudican a la ciudadanía ibérica

"Caso Ihor Homeniuk". La muerte de un ucraniano en el SEF que salpica al Gobierno portugués

Helena Teixeira nos escribe esta noche pasada desde la Redacción del Jornal de Notícias, de Porto. Y no elude el caso tremendo del ucraniano...


Helena Teixeira nos escribe esta noche pasada desde la Redacción del Jornal de Notícias, de Porto. Y no elude el caso tremendo del ucraniano muerto en las dependencias del polémico Servicio de Extranjeros y Fronteras de Portugal; un escándalo tremendo que, sin embargo, no ha supuesto ni dimisión, ni cese del ministro de Administración Interna; todo lo más, el relevo de una mujer que era la directa responsable del SEF dichoso, organismo por lo que se observa un tanto siniestro, cuya reforma y nuevo enfoque parecen urgentes. Es tema de debate profundo estos días en Portugal y de ello nos habla la periodista del Jornal de Noticias en su postal de la noche pasada...







Helena Teixeira da Silva

Imagine que todos os dias 
vai ver o seu pai a morrer

Imagine que um dia o seu pai sai de casa para procurar trabalho, para que toda a família possa viver um pouco menos apertada. Quem nunca?

Imagine que o seu pai, na flor e na força dos 40 anos, compra passagem de avião para o país mais seguro da União Europeia, terceiro mais seguro do Mundo. Imagine que esse país onde o seu pai espera fazer um pé de meia, tantos são os portugueses que o fazem desde os anos 60 procurando noutros lugares do mapa o que lhes falta na terra mãe, é o país que mais prémios de turismo somou, nos últimos anos. O sol, as praias azuis, a temperatura amena, a hospitalidade lendária, talvez tenha dado consigo a sonhar que um dia, quando acabar os estudos que o seu pai pagou com suor, vá ser também turista nesse país.

Imagine que à entrada do aeroporto desse destino escolhido (aeroporto também premiado, este ano, pela "experiência segura" e pela "atenção ao passageiro"), o seu pai encontra uma força de segurança inúmeras vezes distinguida pelo seu labor. Chama-se Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), soa a gabinete de ajuda - com a papelada, a documentação, a identificação. O serviço é aquilo a que soa, está lá escrito na missão do equipamento que aloja 900 (900!) inspetores. O que poderia haver para temer, não é? Aparentemente, o seu pai acabara de chegar ao único lugar do mundo civilizado onde nada de mal poderia acontecer-lhe. Às tantas, até sonhou que o seu pai regressaria a casa antes do Natal. Talvez com presentes para todos.

Imagine que o dia em que o seu pai saiu de casa, para acautelar a dignidade do seu futuro, foi a última vez que o viu vivo. E imagine que, a partir de agora, todos os dias vai ver o seu pai a morrer. Vai ver o seu pai a morrer na televisão, nos jornais (sem jornalismo em que gabinete teria ficado enterrado este caso?), nos relatos dos vizinhos e dos colegas da escola, e todos os dias dentro da sua cabeça. Imagine que a visão da morte do seu pai vai persegui-lo até ao último dia da sua vida. Como não?

Imagine que o Governo desse país, elogiado por ser um dos poucos países da Europa que ainda não se radicalizou através das eleições, não demitiu o ministro que tutela o SEF e que fez à diretora do SEF o mesmo que o seu pai tentou fazer: emigrar. É irónico, não é? A sorte que faltou ao seu pai brindou esta mulher na fuga às responsabilidades: vai ganhar 12 mil euros por mês. O que faria na Ucrânia com esse dinheiro, país onde o salário mínimo não chega a 180 euros?

Imagine que esse Governo e respetiva oposição não conseguem pensar em nada melhor do que num jogo de ping pong entre quem defende a extinção ou a reforma ou a continuidade do SEF e entre quem é quem na hierarquia que faz os anúncios desse futuro improvisado. Fraquinho, não é?

Em Portugal (é esse o nome do país que o seu pai escolhera), já morreram milhares de pessoas este ano. Só de covid-19 morrem quase 100 por dia. Mas há uma só morte que vai envergonhar-nos enquanto existirmos. Pelo menos àqueles que ainda sabem distinguir o bem do mal. Que todos aqueles que, como Ihor Homeniuk, foram mal tratados às mãos de quem exerce o poder que tem com os pés, não se inibam de se fazer ouvir.

Respire fundo, leitor. E decore três datas que talvez possam dar-lhe alguma esperança num mundo em que às vezes custa viver.

1) O plano de vacinação, em Portugal, arranca a 27 de dezembro. Quase dez mil doses irão ser administradas no que sobra deste ano, e mais 300 mil chegam em janeiro do ano novo.

2) O novo estado de emergência proposto pelo presidente da República vai prolongar-se até ao dia 7 de janeiro e, pela primeira vez, prevê o crime de desobediência.

3) 18 de dezembro, ou seja, esta sexta-feira, que a cultura continue sempre a salvar-nos os dias: concerto irrepetível dos Blind Zero, acompanhados da Orquestra Juvenil da Bonjoia, para assistir, às 19h30, no Rivoli, no Porto; "A Criada Zerlina", primeiríssima encenação do cineasta João Botelho, que escolheu nada menos do que a portentosa Luísa Cruz para protagonizar o texto do austríaco Hermann Broch. É no Teatro Carlos Alberto, no Porto, às 19 horas; estrondosa estreia do alemão Frank Castorf em Portugal, com "Bajazet - Considerando o Teatro e a Peste", que sobe ao palco do Teatro Nacional São João, às 18 horas.

E, entre muitas outras hipóteses, tem a possibilidade de ir ao cinema - no Teatro do Campo Alegre, no Porto, e no Nimas, em Lisboa, prossegue o ciclo obrigatório de Wong kar-Wai - e ao circo. O Coliseu Porto Ageas oferece, até ao dia 3 de janeiro, um dos mais sublimes espetáculos de Natal que aquela sala já recebeu.


 

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