CARTA ABERTA A CRISTIANO RONALDO
Cristiano,
Não me conheces.
Nunca nos cruzámos. Nunca tive o privilégio de te apertar a mão, de te olhar nos olhos e de te dizer uma palavra que, provavelmente, nós, portugueses, nem sempre te dissemos vezes suficientes:
Obrigado.
Acompanho-te praticamente desde o princípio. Desde o nosso Sporting. Desde aquele miúdo que deixou a Madeira e chegou a Lisboa carregando uma mala que seria certamente muito mais leve do que os sonhos que trazia dentro dela.
Vi-te crescer.
E, embora seja bastante mais velho do que tu, aprendi contigo.
Aprendi que o lugar onde nascemos não determina necessariamente o lugar onde podemos chegar.
Aprendi que as circunstâncias em que começamos a vida não têm de escrever o seu final.
Aprendi que talento sem trabalho pode perder-se e que determinação, disciplina, sacrifício e uma vontade quase obsessiva de chegar mais longe podem transformar um miúdo desconhecido num dos nomes portugueses mais reconhecidos do planeta.
Enquanto outros jovens saíam, divertiam-se, namoravam, iam a festas e viviam despreocupadamente aquilo que a juventude lhes oferecia, tu treinavas.
Quando outros terminavam, tu continuavas.
Quando parecia suficiente, querias mais.
Primeiro a chegar. Último a sair. Mais um exercício. Mais uma repetição. Mais um remate. Mais um objetivo.
E há uma coisa que talvez nem tu soubesses naquele tempo:
os sonhos que perseguias já não eram apenas teus.
Sem perceberes, começavas a carregar contigo os sonhos de milhões de portugueses.
Depois veio o futebol.
Explosivo. Irreverente. Criativo. Poderoso.
Vieram os golos, os títulos, os recordes, as noites inesquecíveis, as lágrimas, as derrotas e as vitórias.
Mas aquilo que fizeste ultrapassou há muito as quatro linhas de um campo de futebol.
Levaste Portugal contigo.
O nome do nosso pequeno país começou a aparecer associado ao teu em todos os continentes. Crianças que talvez não soubessem localizar Portugal num mapa sabiam dizer uma palavra:
Ronaldo.
E isso também é património.
Desportivo, naturalmente.
Mas igualmente económico, mediático e promocional.
Transformaste o teu nome numa marca global e tornaste-te um caso estudado no desporto, na comunicação e no marketing.
É por isso que me custa ouvir alguém reduzir-te à expressão fácil de que és apenas “um homem que dá uns pontapés numa bola”.
Não.
Cristiano Ronaldo é muito mais do que isso.
Representas trabalho.
Disciplina.
Ambição.
Persistência.
A capacidade de cair e querer levantar-se outra vez.
E representas também aquilo que alguns parecem esquecer:
um ser humano.
Não és um santo.
És um herói para muitos, mas continuas a ser um homem.
Tens defeitos. Cometeste erros. Tomaste decisões discutíveis. Tiveste atitudes das quais alguns discordaram e certamente outras das quais tu próprio poderás ter-te arrependido.
E sim, por vezes o teu ego poderá ter falado mais alto.
Mas quem sou eu para te exigir perfeição?
Quem somos nós?
Há qualquer coisa de profundamente injusto em exigirmos aos nossos ídolos uma perfeição que nunca exigimos a nós próprios.
Quando marcas, celebramos contigo.
Quando ganhas, dizemos que és nosso.
Quando bates um recorde, Portugal inteiro reclama um bocadinho da tua vitória.
Mas quando falhas, de repente, ficas sozinho.
Aparecem os dedos apontados.
As pedras.
As sentenças.
E esquecemos demasiado depressa tudo aquilo que aconteceu antes.
Eu recuso-me a fazer isso.
Também não preciso de concordar contigo em tudo para te respeitar.
Posso achar que determinada decisão foi errada. Posso discordar de uma atitude. Posso até pensar que talvez tenha chegado o momento de uma escolha diferente.
Mas essa discussão nunca apagará aquilo que fizeste.
Nem me dá o direito de decidir por ti quando deves deixar de sonhar.
Se ainda tens um sonho por cumprir e acreditas que podes persegui-lo, tens o direito de tentar.
Depois o futebol decidirá.
O selecionador decidirá.
O corpo decidirá.
O tempo decidirá.
Mas a tua história ninguém poderá reescrevê-la.
Há ainda outra coisa que frequentemente me ocorre quando falamos dos milhões que ganhaste.
Sim, Cristiano, ganhaste milhões.
Muitos milhões.
Mas o dinheiro não compra o passado.
Não existe fortuna capaz de devolver a um homem os 17, os 18 ou os 20 anos.
Não podes comprar aquela noite em que não saíste com os amigos porque no dia seguinte havia treino.
Não podes comprar a festa a que não foste.
Não podes recuperar a adolescência que sacrificaste.
Não podes regressar no tempo e viver despreocupadamente aquilo que decidiste trocar por um sonho.
Há coisas que só podem ser vividas no momento certo.
E tu pagaste um preço pela vida que escolheste.
Recebeste muito, evidentemente.
Mas também deste muito.
E não apenas dentro de campo.
Por isso custa-me particularmente assistir à facilidade com que um país consegue transformar a crítica legítima em ingratidão.
Podemos discutir Cristiano Ronaldo.
Devemos discutir Cristiano Ronaldo.
Não precisamos de venerá-lo.
Mas também não precisamos de destruir um homem para reconhecer que envelheceu, que falhou ou simplesmente que já não consegue fazer aos quarenta aquilo que fazia aos vinte e cinco.
Talvez um dos nossos maiores defeitos coletivos seja este: temos enorme dificuldade em proteger os nossos enquanto ainda estão entre nós.
Somos extraordinários a fazer homenagens quando já não podem ouvi-las.
Eu prefiro agradecer enquanto podes ler.
Por isso, Cristiano, esta carta não é uma canonização.
É precisamente o contrário.
É dirigida ao homem.
Ao madeirense.
Ao miúdo que saiu de casa.
Ao jogador do Sporting.
Ao internacional português.
Ao pai.
Ao empresário.
Ao homem que ganhou, perdeu, chorou, celebrou, acertou e errou.
Ao ser humano.
Não sei quando terminará a tua carreira.
Nem quero decidir isso por ti.
Quero apenas que, quando esse dia chegar, possas olhar para trás e perceber uma coisa:
valeu a pena.
Porque existiu um país que gritou contigo.
Que chorou contigo.
Que saiu para a rua contigo.
Que acreditou contigo.
E muitos de nós aprendemos contigo que aquilo que parece impossível pode deixar de o ser quando alguém decide trabalhar extraordinariamente para lá chegar.
Da minha parte, só tenho duas coisas para te dizer.
A primeira:
Obrigado.
Obrigado pelo que deste ao futebol português.
Obrigado pelo nome de Portugal que levaste pelo mundo.
Obrigado pelas noites em que nos fizeste acreditar.
Obrigado pelas lágrimas.
Obrigado pelas alegrias.
Obrigado pelo exemplo de trabalho, disciplina e persistência.
Obrigado por teres mostrado a tantos miúdos portugueses que nascer numa ilha, numa família simples ou longe dos grandes centros não determina até onde podem sonhar.
E a segunda é mais difícil:
desculpa.
Desculpa pelas vezes em que nós, portugueses, confundimos crítica com crueldade.
Desculpa quando exigimos de ti aquilo que não conseguimos exigir de nós próprios.
Desculpa quando uma falha vale mais nas nossas conversas do que vinte anos de conquistas.
Desculpa quando esquecemos depressa demais.
Eu não esquecerei.
E não preciso de acreditar que és perfeito para te dizer isto.
Aliás, talvez seja exatamente porque sei que não és perfeito que estas palavras fazem sentido.
Continua o teu caminho enquanto acreditares nele.
Quando chegar a hora de parar, que seja tua também a oportunidade de fazer as pazes com o tempo e com tudo aquilo que construíste.
Porque os golos acabarão.
Os recordes, um dia, serão batidos.
Os estádios deixarão de gritar o teu nome.
Mas existe uma coisa que ninguém conseguirá apagar:
houve um português chamado Cristiano Ronaldo que saiu de uma pequena ilha no Atlântico e obrigou o mundo inteiro a aprender onde ficava Portugal.
Por isso, independentemente do ruído destes dias:
Obrigado, Cristiano.
E boa sorte para tudo aquilo que ainda sonhares para ti e para a tua família.
Da minha parte, terás sempre respeito.


