Maricarmen tem 87 anos, a renda passou de 500 para 2300 euros, ela foi despejada de cadeira de rodas, pelo Estado, com 8 polícias de corpo de intervenção, para que serve a polícia? A população de Madrid reagiu, numa manifestação espontânea. Ela - já no hospital, sentada na cama, quase mas 90 anos- , disse "não parem de lutar". A partir daí ocupação da Praça do Sol, milhares na rua, e os professores e estudantes (maré verde pela educação pública) juntaram-se à manifestação pelo direito à habitação. Tento recordar-me da música Ay Carmela, cantada na revolução espanhola, e trauteio “Ay Maricarmen! Velhos são os trapos!”

O Governo de Espanha diz que em dois dias vai apresentar uma reforma da habitação. Nada como manifestações de massas, e com ocupação da Praça do Sol, centro turístico e hoteleiro, para fazer ver aos Governos que não existe crise de habitação, não faltam habitações, não há escassez de casas. O medo mudou de lado em Espanha.
As cidades estão transformadas em refugio de capitais especulativos, em hotéis, hotéis, hotéis, hotéis e as pessoas vivem a 2 horas do trabalho, não comem bem para pagar metade do salário em habitação ou vivem sem dignidade três gerações em cubículos. As terras estão a ser pilhadas, de Oeiras ao Barroso, da Comporta e Évora para estes vampiros colocarem os seus capotais. Não vivem, não habitam, não trabalham, não produzem, esmifram quem trabalha e destroem a paisagem e o espaço comum.
As medidas fofinhas para parar esta obscenidade - que se chama açambarcamento de casas e espaço público e não "crise de habitação" (parem de usar de palavras do senhor amo, não é "crise", é açambarcamento) - têm sido o financiamento aos senhorios, o que, evidentemente só serviu para aumentar o preço das casas.
 
Há dias escutei na rádio Antena 1 -sem contraditório - um auto designado representante dos fundos de investimento imobiliários (um trabalhador árduo, tive pena do suor que verte) a dizer que têm muitas casas com rendas até 2300 euros para o Governo lhes pagar (subsídios) e eles colocarem no mercado...Ou seja, querem viver estes senhores de subsídios, da lei feita à medida deles pelo Governo deles pelo Estado deles. Não vi Ventura chamar-lhes parasitas, andava entretido com o tanque do Neves. Na verdade, do Ventura do Chega que trabalhou nos vistos gold ao serviço de imigrantes milionários ao PSD, IL e PS todos apoiam estas medidas desde a lei Cristas, que têm servido para fazer das casas casinos, e da cidade um parque de diversões, esvaziadas de alma e beleza.
 
As medidas das manifestações por Maricarmen em Madrid - viva Maricarmen - exigem a socialização sem indemnização dos fundos. É isso que devemos exigir, expropriação dos fundos, e - defendo-o claramente - de parte dos hotéis que aliás não são mais do que fundos.
É preciso distinguir pequenos proprietários, apoiá-los justamente, dos grandes donos disto tudo, que devem ser expropriados

Podem dar voltas, não há outra forma, o país está a ficar vazio de gente, nem trabalhadores nacionais nem imigrantes, ninguém aqui consegue viver. É urgente socializar os solos urbanos, mantemos a propriedade das casas mas não dos solos urbanos.
 
Não há crise de habitação nem falta de construção, pelo contrário, estamos rodeados de betão. Faltam jardins, ciclovias, espaços livres de convívio. Faltam-nos partidos socialistas a sério. Se alguém for ao supermercado comprar a comida toda e colocá-la no mercado um ano depois ao triplo é ilegal, como pode alguém, neste caso Bancos e hotéis, comprar as casas todas e ainda falar na rádio pública a pedir um rendimento máximo parasitário?
Uma manifestação por dia, o bem que nos fazia.

RAQUEL VARELA, en su canal de Facebook.
Raquel Varela, Historiadora. Portuguesa.
Raquel Varela é professora universitária FCSH-UNL