Os imigrantes portugueses têm todos aspeto marroquino
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Por Rui Lourenço ·
Os imigrantes portugueses têm todos aspeto marroquino
Estou a passar as férias de verão, como habitualmente, numa terra que nesta altura se enche de emigrantes portugueses. São os filhos da terra que vivem em França, na Suíça, no Luxemburgo, na Alemanha ou na Bélgica e que, chegado agosto, regressam a casa. Enchem as ruas, os cafés, os restaurantes e as festas. Trazem carros com matrículas estrangeiras, misturam português com francês e reencontram família e amigos.
E há uma coisa que me diverte particularmente: têm todos aspeto marroquino. Eu incluído.
Agosto vai a meio, o sol não perdoa, a pele está queimada, as camisolas são leves, as esplanadas estão cheias. Se nos tirassem o passaporte da mão e nos largassem numa fotografia de grupo algures no Mediterrâneo, seria um exercício interessante tentar descobrir, apenas pela aparência, quem nasceu em Portugal, quem nasceu em Marrocos, quem veio da Argélia ou quem vive no sul de França.
E é precisamente por isso que, olhando para esta paisagem humana, me ocorre uma pergunta: como é que alguns destes emigrantes portugueses conseguem passar o ano a ser estrangeiros e, quando chegam a Portugal, votar em quem constrói boa parte do seu discurso político em torno da desconfiança em relação aos estrangeiros?
É uma contradição que merece ser pensada.
O português que vive em França sabe o que significa ter sotaque. Sabe o que é apresentar um nome estrangeiro. Sabe o que é chegar a um país à procura de melhores condições de vida. Sabe o que é trabalhar, pagar impostos, criar filhos e, apesar disso, continuar durante anos a ser identificado como "o português".
Muitos conheceram, ou ouviram os pais contar, um tempo em que "português" também era uma categoria sobre a qual se faziam generalizações pouco simpáticas. Éramos os pobres que chegavam. Os trabalhadores das obras. As mulheres das limpezas. Os que falavam mal a língua. Os que viviam juntos nos mesmos bairros. Os que traziam costumes diferentes.
Hoje, felizmente, milhões de portugueses e seus descendentes estão plenamente integrados nas sociedades que os acolheram.
Por isso causa-me estranheza ver alguns deles reproduzirem em Portugal precisamente o mecanismo que tantas vezes foi utilizado contra nós: "nós somos diferentes; os nossos emigrantes são bons, os imigrantes deles são um problema".
Claro que Portugal tem o direito — e a obrigação — de discutir imigração. Deve discutir números, regras, integração, habitação, salários, exploração laboral, segurança, controlo de fronteiras e capacidade dos serviços públicos. Defender uma política de imigração regulada não é xenofobia. E fingir que não existem problemas também não é particularmente inteligente.
O problema começa quando pessoas deixam de ser pessoas e passam a ser tratadas como uma categoria suspeita apenas por serem estrangeiras.
E aqui regressamos ao meu agosto.
Olho à minha volta e vejo centenas de portugueses torrados pelo sol. Alguns vivem há décadas fora do país. Outros já nasceram no estrangeiro. Uns falam português perfeitamente; outros falam-no com dificuldade. Uns conduzem carros franceses, outros suíços ou luxemburgueses.
E muitos têm, como eu, um magnífico aspeto marroquino de verão.
Talvez seja útil olharmo-nos ao espelho antes de decidirmos quem parece pertencer a um país e quem parece não pertencer.
Porque a história portuguesa tem uma ironia maravilhosa: somos um povo que passou séculos a partir, que tem famílias espalhadas pelos quatro cantos do mundo e que sabe melhor do que quase ninguém o que significa chegar a uma terra que não é a nossa e tentar construir nela uma vida.
Talvez por isso devêssemos ser particularmente exigentes com as políticas de imigração.
Mas também particularmente desconfiados dos preconceitos.
Até porque, depois de quinze dias de praia, há muito eleitor do Chega que, pelo critério da aparência, arriscava ser parado na fronteira pela política que acha que está a defender.
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El autor, RUI LOURENÇO = Mindtree Co-founder, Communications consultant and Creative Director en Mindtree.me