Ingeniero Barbosa : De Paredes a Pekín en tren, pasando por Guillarei y Moscú
Nuestro amigo, el ingeniero experto en temas ferroviarios y diputado en la Asamblea de la República Portuguesa, José Carlos Barbosa, regresó de su viaje-aventura ferroviario a través de Europa, Rusia, Mongolia y China. Salió un día de Paredes (donde es su residencia), pasó por Porto, Valença, Guillarei, Ourense, Madrid, Barcelona y... ancha es Europa, hasta la frontera de Bielorrusia, luego Rusia, Transiberiano, Mongolia y China, hasta la llegada a Pekín, punto y final de un increíble viaje...
Lógicamente, ahora, a su vuelta, José Carlos Barbosa está siendo objeto de múltiples entrevistas, reportajes, documentales... En Vale do Sousa TV le han hecho un especial... titulado :
“De Paredes a Pequim sobre carris” a grande entrevista a José Carlos BarbosaAinda me custa acreditar. Quando estamos a viajar não pensamos permanentemente nos 13.600 quilómetros. Pensamos no próximo comboio, na próxima estação, no próximo bilhete, na próxima fronteira. Só quando chegamos ao fim percebemos a dimensão: 13.600 quilómetros, cerca de 177 horas dentro de comboios, 26 etapas e nove países. Mas os números não conseguem medir o mais importante. Não medem as pessoas que conheci, as conversas, as dificuldades que ultrapassei ou aquilo que fui sentindo. Os quilómetros medem a distância. Não medem a viagem.
---Uma viagem de 13.600 quilómetros exigiu meses de planeamento?
Praticamente nenhum. Eu não faço grandes planos. A única coisa que tratei antecipadamente foram os vistos, porque aí não havia alternativa. Para se perceber: numa quinta-feira terminaram os trabalhos parlamentares. Cheguei a casa por volta das oito da noite, preparei a mochila e às quatro da manhã estava a sair. Em poucas horas estava a partir para uma viagem de 13.600 quilómetros. Não tinha todos os comboios marcados, todos os hotéis reservados nem cada dia programado. Ia avançando, resolvendo e adaptando-me. Há quem fique mais tranquilo sabendo onde vai estar daqui a dez dias. Eu sinto-me mais livre sabendo que amanhã posso decidir o que fazer. E isso também cria histórias que nunca aconteceriam se estivesse tudo planeado.
---Qual foi a etapa que mais o marcou do ponto de vista ferroviário?
É muito difícil escolher uma. O Transiberiano era um sonho antigo. Atravessar milhares de quilómetros da Rússia, ver a paisagem mudar lentamente e passar tantas horas dentro daqueles comboios foi extraordinário. Depois veio a Mongólia, o Gobi e finalmente a China, onde entramos numa dimensão completamente diferente da ferrovia, nomeadamente na Alta Velocidade. Foi quase uma viagem através de diferentes épocas e diferentes formas de pensar a ferrovia.
Houve momentos realmente tensos. Primeiro na Bielorrússia porque não entrei num autocarro convencional. Entrei num daqueles carros que circulam naquela zona a angariar pessoas para atravessar a fronteira. E, como é óbvio, quando estamos num carro com pessoas que não conhecemos e todos falam russo entre si sem percebermos absolutamente nada, há alguma insegurança. Durante algum tempo não tinha plena confiança em quem me estava a levar. Não sabia exatamente o que estavam a dizer ou o que ia acontecer. Depois veio a fronteira. Os guardas pegam no nosso telemóvel, fotografam conteúdos, entram nas aplicações, veem informação pessoal. Naquele momento sentimos que estão literalmente a mexer na nossa vida. E depois há a barreira da língua. Eles falavam pouco inglês, eu não falo russo e existe naturalmente desconfiança de quem está a entrar. Não diria que senti propriamente prepotência ou arrogância. Senti tensão, dificuldade de comunicação e o desconforto natural de ter alguém a mexer nas nossas coisas sem conseguirmos explicar-nos plenamente. Foi estranho.
---O que passa pela cabeça durante mais de 177 horas dentro de comboios?
Passa uma vida inteira. Há tempo para pensar na família, nos amigos, no trabalho, naquilo que já fizemos e naquilo que ainda queremos fazer. Mas há também uma coisa extraordinária: aprendemos novamente a olhar. Hoje vivemos sempre com pressa. Num comboio durante 20 ou 30 horas não conseguimos acelerar o tempo. Então olhamos pela janela. E percebemos uma coisa muito simples: o caminho também faz parte do destino.
---Esta viagem foi também um reencontro com diferentes fases da sua vida?
Sem dúvida. Trabalhei muitos anos na ferrovia, conheci oficinas, manutenção, engenharia, material circulante e sobretudo as pessoas extraordinárias que fazem os comboios circular todos os dias. Nesta viagem voltei também um pouco àquele jovem que começou nesta profissão cheio de curiosidade. Foi um reencontro com muitas coisas da minha própria vida.
---Conseguiu olhar para a ferrovia apenas como passageiro?
Não. É impossível. E também não quero. Eu quero aprender. Quero perceber como os outros fazem, observar soluções, comparar sistemas, ver aquilo que funciona melhor e trazer ideias comigo. Para mim, uma viagem destas também é uma enorme oportunidade de benchmarking. Isso ajuda-me a ser melhor profissional e ajuda-me a ser melhor político. Permite-me falar da ferrovia com conhecimento prático, comparar realidades e combater muitas ideias erradas sobre o caminho de ferro. Eu sou passageiro, claro. Mas sou muito mais do que passageiro. Sou um apaixonado por comboios, sou um trabalhador da ferrovia, sou um ativista pela ferrovia e sou um político que defende a ferrovia. Sou tudo isso ao mesmo tempo.
---Qual foi o país que mais o surpreendeu?
A Rússia marcou-me bastante, até pelo contraste entre aquilo que ouvimos diariamente e aquilo que encontramos quando estamos no terreno a conviver com as pessoas. E esta viagem reforçou em mim uma convicção: o povo não é o Governo. Eu posso condenar, como condeno, a invasão da Ucrânia, posso discordar profundamente de Putin e do regime russo, mas isso não significa transformar milhões de cidadãos russos nos responsáveis pelas decisões do seu Governo. Encontrei pessoas extraordinárias. Pessoas que me ajudaram, que tentaram comunicar comigo, que partilharam coisas comigo. Os governos passam. Os povos ficam. Não podemos confundir um povo com quem o governa num determinado momento.
---O que encontrou na China?
A China não era propriamente uma novidade para mim. Eu já conhecia o país e já tinha percorrido cerca de 8.000 quilómetros em Alta Velocidade numa viagem anterior. Mas voltar à China continua a impressionar. Estamos a falar de um dos países que mais evoluiu e cresceu nas últimas décadas e que construiu uma rede ferroviária de Alta Velocidade com mais de 50 mil quilómetros. Mas interessa-me observar mais do que os comboios. Interessa-me perceber como as cidades cresceram, como articulam infraestruturas e habitação, como as pessoas utilizam o espaço público, comem na rua, convivem e se deslocam. E gosto dos chineses. Encontrei sempre pessoas curiosas, trabalhadoras e com enorme vontade de progredir. A China tem naturalmente problemas, contradições e um sistema político completamente diferente do nosso. Mas seria absurdo não estudar aquilo que conseguiu fazer em poucas décadas. Não para copiar tudo. Para aprender.
---O que encontrou na fábrica de comboios?
Eu já conhecia a fábrica. Quis regressar precisamente para ver as novidades e perceber como tinha evoluído.E continua a ser brutal. Estamos a falar de uma escala de produção difícil de explicar. Milhares de trabalhadores, linhas de produção impressionantes e comboios a sair a uma cadência extraordinária. Para alguém que trabalhou na manutenção e engenharia ferroviária, aquilo é fascinante. E há outro aspeto que me impressiona: as condições das oficinas. Existe muitas vezes uma ideia pré-concebida sobre as fábricas chinesas. Aquilo que vi foi organização, tecnologia, limpeza e boas condições de trabalho. Costumo dizer a brincar que há oficinas onde o chão está tão limpo que dava para comer nele. Também reparei numa presença crescente de mulheres nas áreas de produção. Ainda são uma minoria, mas já existe uma abertura evidente. É uma indústria com uma capacidade de produção verdadeiramente impressionante.
---Se tivesse de guardar apenas um momento, qual seria?
Talvez a chegada a Pequim. Não apenas porque tinha chegado ao destino. Mas porque naquele momento me passaram pela cabeça todos os comboios anteriores, todas as fronteiras, todos os problemas e todas as pessoas. E sobretudo porque pensei: “Saí da Estação de Paredes e cheguei aqui sobre carris.” Foi um momento muito forte.
---Se tivesse de resumir esta viagem numa palavra, qual seria?
Liberdade. Liberdade para partir, descobrir, conhecer pessoas, errar, aprender e perceber o mundo com os meus próprios olhos.
---Foi uma viagem de sonho ou o sonho de uma viagem?
As duas coisas. Foi uma viagem com que sonhei durante muitos anos. Mas também foi uma viagem que me fez voltar a sonhar ainda mais. E talvez isso seja o mais bonito. Realizar um sonho não tem de ser o fim. Às vezes é apenas o início do próximo.
---Daqui a alguns anos, o que gostaria de recordar?
As pessoas. Provavelmente vou esquecer a hora exata de determinado comboio ou o número da carruagem onde viajei. Mas vou recordar quem me ajudou numa estação. O ferroviário que encontrou uma solução quando parecia não haver lugar. Uma pessoa com quem partilhei uma refeição. Uma conversa às três da manhã. Uma paisagem que vi quando acordei e abri a cortina. Porque, no fim, percebi uma coisa: os carris ligam cidades e países, mas são as pessoas que dão sentido à viagem.
---Uma viagem destas mudou alguma coisa na pessoa que é?
Claro que mudou. Uma viagem destas muda-nos sempre. Mudou ainda mais a minha visão sobre o mundo, sobre a multiculturalidade e sobre a necessidade de respeitarmos as pessoas e as diferenças. Nós criamos muitas vezes estigmas sobre países, povos ou culturas sem verdadeiramente os conhecermos. Depois chegamos lá, convivemos com as pessoas, dormimos nos mesmos espaços, comemos juntos, conversamos, ajudamo-nos e percebemos que a realidade é muitas vezes muito diferente da imagem que construímos à distância. Encontrei pessoas fantásticas, bondosas e disponíveis em praticamente todos os países por onde passei. E voltei ainda mais convencido de uma coisa: as pessoas não são os seus governos. Podemos discordar profundamente das políticas de um Governo, condenar decisões ou regimes, mas isso não nos pode levar a criar preconceitos sobre um povo inteiro. Esta viagem reforçou em mim o respeito pela diferença e a certeza de que a multiculturalidade nos torna mais ricos. No fundo, trouxe-me ainda mais vontade de ouvir antes de julgar e de conhecer antes de criar uma opinião.
---Uma viagem de 13.600 quilómetros até Pequim parece um luxo. Foi uma viagem cara?
Não. E isso também era uma das coisas que queria mostrar. Viajar não tem necessariamente de ser um luxo. Quem me conhece sabe que sempre fui uma pessoa simples e tranquila. Era assim quando era aprendiz ferroviário, quando era eletricista, quando trabalhei na produção, quando fui engenheiro e quando dirigi oficinas. E continuo a ser assim hoje. Continuo a frequentar muitos dos mesmos lugares, a parar no mesmo café e a ter muitos dos mesmos hábitos que tinha quando ganhava muito menos. E viajo exatamente da mesma maneira. Durmo em hostels, partilho quartos, procuro soluções simples e não preciso de hotéis de luxo para conhecer um país. Em Barcelona, por exemplo, fiquei num hostel onde estavam também alojadas pessoas refugiadas que recebiam apoio público para não ficarem na rua enquanto procuravam uma solução para as suas vidas. Dormimos no mesmo espaço, conversámos e convivemos. E quando estamos ali deixamos de discutir “os refugiados” como se fossem um conceito abstrato. Vemos pessoas. Vemos pessoas à procura de uma vida melhor, algumas com histórias muito difíceis, e percebemos também a pressão social, a desconfiança e o racismo que muitas enfrentam.
Na Rússia também dormi em hostels e partilhei espaços com pessoas completamente diferentes de mim. E gosto disso. Eu não quero atravessar um país fechado num hotel e olhar para ele através de uma janela. Quero estar com as pessoas. Quero conversar, ouvir e perceber como vivem. Para mim, o verdadeiro luxo de viajar não está no hotel onde dormimos. Está nas experiências que vivemos, nas pessoas que conhecemos e na liberdade de conhecer o mundo.
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Fotos : José Carlos Barbosa


