Viagens na minha terra a partir do Ribatejo


De como o autor, embora já não vivendo na Chamusca, tendo trocado a vila pela cidade, redescobre na leitura de “Viagens na Minha Terra”, o amor pelo torrão natal e conclui que apesar de tudo é mais ribatejano do que pensava.
Por Joaquim António Emidio, director-geral de 
O MIRANTE, o maior e melhor jornal regional de Portugal

A maioria das pessoas que me conhece, e a outra maioria que não me conhece mas tira-me pela pinta, sabe que eu sou chamusquense nascido e criado. Só que há meia dúzia de anos fizeram uma patifaria à família e resolvemos mudar de território (uma patifaria de amadores mas bem engendrada e certamente com assinatura). Por isso tenho duas casas à venda e 5 hectares de terra junto à maracha. A casa de família vai sobreviver, em princípio, e é por isso que escrevo este texto. Não há melhor terra no mundo que a Chamusca para viver a reforma. A terra tem tudo aquilo que serve os interesses dos reformados. Tudo demora muito tempo mas acaba sempre na altura certa, desde as obras à marcação de consultas médicas, a GNR está lá mas não está, os políticos trabalham com o plano de actividades da Misericórdia local em homenagem à velhice e aos tempos antigos, podemos ir à pesca no rio ou à caça na charneca, a vila é acolhedora e as pessoas são pacatas, os naturais adoram ver chegar os estrangeiros e são verdadeiramente hospitaleiros como há meio século, todas as cidades importantes ficam a poucos minutos de caminho e, por último, a Chamusca está quase sempre em festa e os restaurantes são poucos mas são bons, e, sem excepção, dos cafés e das tabernas que ainda resistem também não há mal para dizer. Vou lá muito raramente, mas é lá na terrinha que quero passar a velhice se não morrer em viagem como tanto desejo.

Fica aqui este texto como testemunho para as pessoas que andam à procura de uma terra pacata para comprarem um terreno ou uma casa e fugirem do stress da cidade para viverem mais uns anos com saúde.
O elogio à Chamusca surgiu como texto numa destas noites em que acabei de reler as “Viagens na Minha Terra” de Almeida Garret.
Li o livro ainda na casa dos vinte anos e só gostei porque era sobre a Azambuja, o Cartaxo e o Vale de Santarém, e a história da Joaninha dos rouxinóis. Na altura a escrita soube-me ao século XIX. Relido agora deixei-me conquistar e, no entanto, penso que já vivo no final do século XXI. É um grande romance e uma grande oportunidade para um homem testar a sua paciência e os seus conhecimentos. O prefaciador do livro dá conta disso reconhecendo que a leitura exige do leitor alguma erudição e, acima de tudo, muita mundividência, coisa que poucos de nós conseguem aos vinte e tal anos.
A Viagem é de Lisboa até Santarém; a Chamusca não vem a propósito, mas eu ia achando que sim enquanto devorava a prosa romântica, fora de moda, mas poética e ternurenta como eu gosto no autor de “Cartas de Amor à Viscondessa da Luz”, um dos mais belos livros de amor que já li na minha vida. A verdade é que descobri também que sou mais ribatejano que chamusquense, sou mais do tempo em que o meu pai era seareiro de tomate na Azambuja do que do tempo em que jogava às cartas na colectividade com o Gaspar, o mestre João da Silva, o José Joaquim Estorninho e outros homens respeitados da terra que já fazem tijolo há muitos anos.
Resumindo que o espaço é curto: não vivo na Chamusca mas gosto da terra e gosto das pessoas que lá vivem, e ando à procura de mais gente que, como eu, queira ir viver para lá e gozar a reforma.
Fica aqui o testemunho sem nada na manga, e sem vontade de dizer mal, embora dizendo, dos que hoje governam a terra e são mais palermas e trogloditas que eu sou ribatejano. 

JAE.)
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